Exercício XII | Exposição "Marlene Barros: Tecitura do Feminino"

A exposição Marlene Barros: Tecitura do Feminino é intensa, bela e propositalmente desconfortável. É um convite a encarar temas densos como a violência e a desvalorização da mulher em contraste com materiais leves e delicados, com linhas, tecidos e diversas formas de costura. 

Esse contraste potencializa o impacto das obras e cria uma tensão constante entre forma e conteúdo, o que também é amplificado pela escolha das cores. O vermelho aparece em contraste com bege, branco e preto, criando uma presença visual muito forte ao longo da exposição. É uma cor intensa, frequentemente associada à feminilidade, mas que carrega significados ambíguos: pode remeter ao batom, como marca simbólica do feminino, mas também ao sangue e à menstruação. Essa dualidade contribui para a complexidade das leituras possíveis.

A exposição é sensível e bastante imersiva. A maneira como as salas foram organizadas utiliza o espaço de formas que despertam curiosidade e provocam diferentes interpretações ao longo do percurso.

Em uma das instalações, há órgãos pendurados que parecem presos ao teto, formando algo semelhante a uma teia. A estrutura sugere que tudo ali está conectado de alguma maneira, como se cada elemento fizesse parte de um mesmo sistema.

Essa ideia de conexão aparece novamente em outra parte da exposição, onde há fotos de mulheres com fragmentos de outros rostos sobrepostos. As imagens são atravessadas por fios pretos que se estendem ao redor delas, criando uma espécie de rede. A composição remete a esquemas de investigação criminal, como os que aparecem em filmes, e me levou a uma leitura sobre a multiplicidade de casos de violência. São tantas histórias diferentes, mas que acabam se entrelaçando. Em meio a tantas camadas, surge até a dificuldade de identificar individualidades — como se essas experiências fossem, de certa forma, banalizadas. Ao mesmo tempo, há uma forte sensação de conexão entre todas elas.


A partir disso, a exposição articula constantemente a tensão entre o individual e o coletivo. Na minha leitura, ela sugere que, embora cada experiência seja única, há padrões que se repetem — especialmente quando se trata de objetificação, violência e pressões sociais direcionadas às mulheres.

Outro tema recorrente é a gravidez. Logo no início, há imagens de mulheres que aparentam estar grávidas, amarradas, com as mãos erguidas. A cena pode ser associada tanto a uma posição de súplica quanto a algo mais violento, próximo de um enforcamento. Essa ambiguidade tensiona a ideia da maternidade: ao mesmo tempo em que pode ser vista como uma experiência profundamente humana e significativa, também carrega uma carga de pressão e expectativa.


Há ainda uma instalação com um corpo feminino coberto por palavras — xingamentos e julgamentos frequentemente direcionados às mulheres, seja em relação ao corpo ou à personalidade. O fato de esse corpo estar exposto, cru e pendurado intensifica a reflexão sobre a pressão estética. Trata-se de uma cobrança que não é apenas física, mas também psicológica, evidenciando um conflito constante com o próprio corpo. Nesse momento, me lembrei do clipe Strip, do Little Mix, que trabalha com essa mesma ideia. 

Entre as obras, a que mais me marcou foi aquela em que a artista posiciona a genitália feminina diante de uma cruz. A imagem carrega um simbolismo forte: a cruz remete ao sacrifício e ao sofrimento, enquanto a representação do corpo feminino ali reforça a ideia de dor, controle e intervenção. Essa composição, para mim, sintetiza de forma muito potente a realidade da mulher.

 

Ao final da exposição, há um espaço interativo onde os visitantes podem criar seus próprios trabalhos utilizando linhas. Esse momento funciona como um respiro dentro da intensidade da mostra, e também desloca o visitante da posição de observador para a de participante, funcionando como uma extensão da própria proposta da mostra.

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