Exercício XXIV | Fichamento "Sistemas Gerando Sistemas" de Christopher Alexander

  • Sobre o autor: 

Christopher Alexander (1936–2022) foi um arquiteto e teórico austríaco radicado nos Estados Unidos, amplamente reconhecido como um dos pensadores mais influentes da arquitetura e do urbanismo do século XX.  Sua obra é frequentemente associada a uma crítica contundente ao modernismo arquitetônico. 

Alexander "nadou contra a corrente ao longo de sua trajetória como arquiteto e teórico — desde os anos 1960, em sua ruptura com o movimento moderno", identificando as razões da desconexão entre ambiente construído e vida social que as cidades tradicionalmente proporcionavam. Sua pergunta central versava sobre "a gênese , da forma, da cidade, da natureza, e seu enraizamento na prática humana e nas soluções que criamos historicamente como cultura".

  • As duas ideias ocultas na palavra "sistema"

O artigo se abre com uma premissa fundamental: a palavra "sistema" contém dois significados distintos, embora muitas vezes confundidos. Alexander distingue entre o sistema como um todo, uma visão holística de uma única coisa, e o sistema gerador, que seria um conjunto de partes e regras capaz de gerar muitas coisas. O autor observa que essas duas visões, embora superficialmente semelhantes, são logicamente bem diferentes. No primeiro caso, a palavra refere-se a uma visão particular de uma única coisa; no segundo, a uma estrutura gerativa capaz de produzir múltiplas configurações.

  • O sistema como um todo

Alexander define o sistema como um todo não como um objeto em si, mas como uma maneira de olhar para um objeto. Trata-se de uma perspectiva analítica que se concentra em propriedades holísticas, ou seja, fenômenos que só podem ser compreendidos como produtos da interação entre partes. Para ilustrar o conceito, o autor apresenta quatro exemplos distintos. 

  1. O primeiro é a Grande Depressão, fenômeno econômico que resulta da interação entre taxas de consumo, investimentos de capital e poupanças, interações que podem ser especificadas em equações e que, sob certas condições, "sempre irão levar a uma depressão". 

  2. O segundo exemplo é a estabilidade de uma chama de vela, cujo tamanho e forma constantes são produzidos pela interação entre fluxos de cera vaporizada, oxigênio e gases queimados, mediada pelos processos de combustão e difusão. 

  3. O terceiro é a força de uma corda, que resulta da interação entre os fios individuais causada pela torção: "destorcida, a força da corda é governada pelo fio mais fraco; torcidos, os fios agem juntos e aumentam sua força". 

  4. O quarto exemplo é o comportamento de um computador ThinkADot, no qual o lado de saída da bola não é determinado apenas pelo furo de entrada, mas também pelo estado interno da máquina, que depende da sequência de entradas passadas.

Alexander argumenta que as propriedades mais importantes de qualquer coisa são aquelas relacionadas à sua estabilidade, que dá a uma coisa seu caráter essencial. A força de um arco, a queima contínua de uma chama, o crescimento de um animal, o equilíbrio de uma ecologia florestal, a segurança econômica de uma nação, a sanidade de um indivíduo e a saúde de uma sociedade são todos fenômenos relacionados à estabilidade, e a estabilidade é sempre uma propriedade holística.

Para que algo possa ser adequadamente chamado de sistema, Alexander estabelece três condições necessárias: identificar o comportamento holístico no qual se está concentrando; especificar as partes e as interações entre elas que causam esse comportamento; e explicar o modo pelo qual essa interação produz o comportamento holístico definido. O autor conclui que a ideia de um sistema é sinônimo da ideia de um modelo abstrato de algum comportamento holístico específico.

Por fim, Alexander adverte contra dois riscos opostos: o primeiro é chamar algo de sistema sem ter um modelo abstrato claro; o segundo é permitir que a exigência de rigor impeça a apreensão intuitiva de fenômenos complexos. Ele descreve um processo ativo que começa com o sentimento de que algo funciona como um sistema e só depois passa ao pensamento analítico: "Comece com algum aspecto da vida tão entrelaçado que você sente em seus ossos, deve ser um sistema, só que você não pode declarar ainda — e então, uma vez que você sentiu claramente, tente fixar o sistema".

  • O sistema gerador

A segunda acepção de sistema, o sistema gerador, é radicalmente diferente da primeira. Não se trata de uma visão de uma única coisa, mas de um kit de partes, com regras sobre como essas partes podem ser combinadas. Alexander oferece exemplos que vão do cotidiano ao formal. 

Os sistemas de apostas informam como fazer as apostas; o sistema Montessoriano estabelece regras para crianças e professores em uma pré-escola; o sistema democrático define regras sobre a natureza da representação, a escolha de representantes e a conduta das eleições. Nos sistemas formais da matemática, números, variáveis e sinais como + e = são as partes, e as regras especificam maneiras de combinar essas partes para formar expressões e sentenças verdadeiras. O sistema de linguagem opera em múltiplos níveis, no nível das letras para formar palavras e no nível das palavras para formar sentenças. Por fim, o sistema de construção fornece um kit de partes, como colunas, vigas, painéis, janelas, portas, etc, que devem ser combinadas de acordo com certas regras.

  • A relação entre os dois conceitos de sistema

Alexander estabelece uma questão central: quase todo objeto que apresenta um comportamento holístico interno é, ele mesmo, criado por um sistema gerador. Os exemplos são esclarecedores: a pureza de desempenho de um sistema de alta fidelidade só pode ser entendida como produto da interação entre componentes, mas esse mesmo sistema é gerado pelo kit de partes disponíveis no mercado e pelas regras que governam as conexões elétricas. O pátio ferroviário de classificação funciona como um todo graças à sequência de interruptores e relações de comprimento, mas é gerado por trilhos, comutadores, acoplamentos e regras de montagem. Um animal precisa ser visto como um sistema holístico, mas é criado pelo sistema genético.

O autor faz uma observação importante: "O sistema gerador não precisa ser consciente (como no caso do pátio de classificação), nem mesmo sempre explícito (como no caso genético)". Às vezes, os processos que compõem os sistemas geradores são integrais ao próprio objeto que está sendo formado, como no caso da chama da vela, em que os processos químicos que geram a chama são os mesmos que mantêm o equilíbrio do sistema e constituem as partes que interagem quando a vemos como um sistema holístico.

  • A crítica aos sistemas de construção existentes

Na conclusão do artigo, Alexander dirige uma crítica incisiva aos sistemas de construção contemporâneos. Embora reconheça que um sistema de construção é um exemplo de um sistema gerador, ele adverte que nem todo sistema gerador cria necessariamente objetos com propriedades holísticas valiosas. 

O exemplo do sistema que produz quadrados a partir de triângulos é ilustrativo: "É um sistema gerador perfeitamente bom; ainda assim, os objetos que produz não fazem nada: eles não têm propriedades holísticas de sistema".

Alexander aplica essa crítica diretamente à arquitetura: "Num edifício em bom funcionamento, o edifício e as pessoas que o compõem formam um todo: um todo social e humano. Os sistemas construtivos que até agora foram criados não geram totalidades nesse sentido". 

A distinção crucial é que, embora seja inerente ao sistema gerador de um animal que o animal acabado funcione como um todo, o mesmo não se aplica aos sistemas de construção atuais. Criar sistemas de construção no sentido atual não é suficiente. Precisamos de um novo tipo de sistema de construção mais sutil, que não apenas gere edifícios, mas gere edifícios com garantia de funcionar como sistemas holísticos no sentido social e humano.

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